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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ONDA QUE QUEBRA NA AREIA

faz-se neste momento aquele marulho
aquele som de onda do mar
aquela espuma de prata nas pedras
faz-se o aroma da maresia
embalando os sonhos e as vontades
deixando nos lábios aquele gosto
aquele sabor de maresia e movimento
a vida encontrando-se no agora
é velocidade e ação sem fim
todas as coisas aqui ao mesmo tempo
dançando nesta pista insana
do dia a dia
em que lugar agora estamos?
somos resíduos de conchas na areia?
onda que morre na areia
vidas que vão ficando para trás
ou prancha que quebra nos tubos?

TELAS DA MUDANÇA

pinto um quadro as com minhas próprias cores
misturas de todas as formas e desenhos
deslizo os pincéis com carinho e amor
numa tela de mil tecidos e de molduras
dou forma a mil esboços e traçados
alguns choram mares de tristeza
outros trazem o sol e manhã de alegria
hei de criar mares de fogo
céus de água onde circulam navios
carruagens de conchas e castelos de areia
posso sonhar em reencontrar entes perdidos
moldo-os qual escultor no papel
posso unir espírito e carne
prever o futuro e evitar o passado
dou forma a uma vida
dúvida e resposta moram no mesmo espaço
sol e lua encontram-se em um abraço
as ondas do oceano a se beijar na madrugada
jogo com luz e sombra
dois corpos opostos no mesmo tempo e espaço
minhas flores e frutos abrem-se
mesmo no vazio e no deserto
as mãos tamborilam agitadas e febris
a testa encharca-se de suor
uma obra prima toma sua forma devagar
minha vida -
sucessão de casos e acasos
onde apenas a mudança há de permanecer








MAIS QUE UM MINUTO

não é necessário mais do que um minuto
para parar um trânsito
para despertar paixões e inveja
e fazer as veias saltarem nos pulsos
não é necessário mais que um instante
para que uma luz se apague
uma vela provoque um incêndio
uma luta se transforme num beijo
o amanhecer vem tão lento e inesperado
logo toma os céus e a natureza
uma flor desabrocha e ganha os olhares
desperta invejas
atrai amores de borboletas e abelhas
segue pelo caminho da terra em semanas
por que então leva-se uma vida inteira
atrás do que passa e se desfaz?


POR BAIXO DAS TINTAS

uma jovem jaz numa tela suspensa na parede
teu rosto é pureza e inocência
porém teu olhar é sombra e perdição
teu riso mostra-se mais misterioso
com as luzes da cidade em tua janela
tantos passam a seu redor
muitos não a veem ou entendem
porém detenho-me e perco-me em teu semblante
olho no olho
toque no toque
lábio no lábio...
dize-me ó pintura densa e arrogante
quais segredos guardou teu mestre?
quais histórias escondeste dos que a observam?
dize-me ó quadro suspenso em tela
que guardas por baixo das tintas?
teu vermelho esconde uma paixão?
teu azul intenso oculta uma paz buscada?
o verde das matas reflete teus sonhos?
o ouro e a escarlata são tua cobiça?
foste feita à base numa paixão
ou apenas a ganância e vaidade dos homens?
buscais sugar-me ó guaches e aquarelas?
antes me deixai entrar em teu reino
banhar-me em tuas águas e brincar na areia
e que a tua companhia seja-me eterna



ASAS QUE ME CORTASTE

sou pedra tocada por um anjo de lava
sou vaso de barro partido espalhado
recolho meus pedaços pelo piso da casa
a vida fez-me visitar
aquele lugar silencioso e escuro
aquela sombra que fiz questão de esconder
mergulhei até o final do poço
de lá voltei tingido de cores perversas
quero sentir um coração pulsando
quero tocar uma alma inocente
voltar a sentir a paz e a afeição
pois éramos pássaros presos na gaiola
hoje houve um trato quebrado
e aqui permaneci sozinho como escravo
o coração sente ódio e desprezo
a cólera contamina os sentidos e a razão
uma língua desliza pelo meu rosto
rasga-me com saliva envenenada
toque de fogo e de lâmina afiada
navalha que desce certeira
diga-me pois
podes lembrar-se das asas que me cortaste?



FULGOR DE UMA ROSA

agarro-me às pétalas caídas de tuas flores
luto para cavalgar os insetos
busco domar os bravos rios e as chamas
vejo e aprendo com o planar dos pássaros
porém quebro-me como onda ao chegar à praia
sob o mar faço castelo de areia
na terra faço fortaleza de chamas
espalho velas em vigília pela esquina
domo os fantasmas e sombras no pensamento
no entanto sufoco-me sob longas palavras
hei de voar tranquilo entre falcões e águias
os tigres e lobos conhecem-me
venenos de naja e escorpião não me vencem
a tudo resisto pois não me importo
porém o tremor que habita em minha veia
é este querer que consome a alma
aperta-me o pescoço e turva os sentidos
ensina-me a lidar com o fulgor de uma rosa
a vida feriu-me demais entre tantos espinhos


A VAIDADE DE UMA MÁSCARA

na esquina vem dobrando a rua um baile de máscaras
onde se podem ver todos os planetas
circulando em torno de um mesmo denso e escuro sol
falsas divindades em show de horrores
vidas que seguem na estrada qual fantasmas
há plumas e paetês de todas as cores
uma confusão de sedas e brocados luminosos
há guerreiros lado a lado com doutores das leis
há piratas dividindo o licor com as feras
a esfinge busca apoio nos braços dos gladiadores
escravos debaixo dos olhos e suplícios de senhores
atena expondo sua beleza guerreira
vênus oferecendo seus lábios aos amantes
a madrugada segue pelo infinito
as túnicas vão se manchando de vinho e sangue
os disfarces desfazem-se nos cantos do escuro
porém as faces de pele e carne permanecem
imóveis em falsos sorrisos e lágrimas
nesta longa e infinita festa banhada de escuridão
- a vida agarrada à vaidade de uma máscara -
onde a euforia sob um disfarce dura uma hora
tudo o que resta é esse vazio por uma eternidade


REFLEXO TURVO

dirás que sou pobre espírito perdido sem causa
talvez pouco mais que um bêbado vagabundo
a cidade vê e não compreende
homens de bem não querem compromisso
mulheres fingem nada desejar e se escondem
dirão que somos apenas dois mendigos caídos
lado a lado com o álcool da mentira
na veia pouco mais que pó e muitas ilusões
as luzes sobre os postes nos iluminam
os holofotes viram o rosto e nos negam apoio
achas que esta vida já virou apenas uma lama
onde há águas vivas que iludem e queimam
e flores carnívoras que bebem sangue
não posso culpar-te pois já fui assim
antes forte e idealista
hoje castelo de areia espalhado na multidão
sei que a vida é areia movediça
para ficar em pé é preciso agarrar-se
e agora tão certo como a luz e a noite
reflexo turvo de um pedaço quebrado de vidro
eu me agarro à esperança que vejo em ti





CRISÁLIDA DE CHAMAS

uma vez vimos juntos os frutos entre as videiras
os efêmeros e breves rios de chamas
que se uniam ao eterno mar de estrelas
onde havia fogos em momentos tristes
e as únicas lágrimas eram da alegria dos jovens
andamos sobre as árvores da floresta escura
até atingir o sol e a lua como guia
mas por vezes fomos cegos e nos perdemos
apenas pelo orgulho de seguir em frente
havia víboras e escorpiões espalhados no caminho
mas soubemos nos esconder nas cavernas
onde havia surpresas de pedras coloridas
e luzes intensas que pendiam do teto
por vezes as pedras feriram nossos pés
espinhos pelejaram cravados em nossos braços
por qual motivo nos separamos nesta estrada?
talvez porque tudo tornou-se fácil
não havia mais aventura nem magia sob a aurora
o que era azul viril tornou-se cinza cotidiana
era púrpura e dourado e jaz sob a ferrugem
mas na mente tudo o que sobra é a velha promessa
do coração batendo no vazio da vida
e isso basta para duas feras teimosas
- um tigre e uma pantera que jazem
prontos para uma caçada final na madrugada
uma vez vimos juntos os frutos entre as videiras
e lá aguardam eternos
morangos e uvas pendendo ao alcance das mãos
para despertar-nos como borboletas de fogo
desta crisálida de chamas que se chama coração


ELO PERDIDO

aqui finalmente chega-se àquela distante ponte
àquele elo perdido
ao lugar em que sonhos e realidade convergem
onde no peito palpitam os desejos
antes de chegaram na mente nas vigílias do sono
onde a cinza da vida encontra o carnaval do querer
quando os homens formais dançam valsa
lado a lado com as mulheres selvagens do tango
onde o anima encontra seu animus
onde o nosso ego encontra com a sombra
agora por fim trespassa-se o limite
onde já não se sabe onde é a vida e a morte
onde as estrelas se refletem no mar
lamento pois
sou carne e osso
tu és espírito e luz brilhante
sou tão somente barro aspergido no mangue
és amazona guerreira imortalizada em mármore
por isso vim
pois no final de todas as coisas
há um centro onde todas as coisas convergem
um olho de furacão que une em si passado e futuro
o espírito e a carne
um lugar só nosso chamado amor
beijemo-nos para que sejamos um só
tão eternamente como sempre e jamais podem ser



CARNE VIVA

amar
como uma lâmina rasgando a pele
a dor da viva carne exposta
o sangue aspergido sobre o solo
em sementes de paixões perigosas
apaixonar
com a força de um furacão
sem piedade
tempestade destruidora de lares
na insônia triste do dia a dia
sentir
qual um fogo no escuro do quarto
um sonho paralelo sem fim
adoecer
seguir a fruta vermelha
que se despedaça sobre os dentes


- amor é faca que dilacera a razão

O MUNDO MÁGICO

há um mundo mágico por trás do véu da noite
onde seres fantásticos
festejam e dançam todas as noites
pulando de ébria alegria
divertem-se como se não existisse o amanhã
há um mundo escondido
por trás da escuridão da lua
oculto dos olhos dos homens
secreto aos ouvidos da sociedade
um baile de máscaras à luz da fogueira
tendo por testemunha o silêncio das estrelas
as criaturas da noite se juntam
repartindo o mesmo vinho e néctar
dividindo lágrimas e paixões violentas
fazendo animados festins
atuando por trás das máscaras
onde reis e rainhas bebem com os servos
onde feridos e doentes comem com os sãos
um banquete de carnes e mil bebidas
onde faunos agitam-se lado a lado com fadas
pégasos disputam prendas com centauros
heróis e heroínas tiram braços de ferro
bárbaros e donzelas montam cavalos de fogo
em frente a um mar de chamas
feiticeiras voam lado a lado com grifos
há um mundo de encantos por trás da madrugada
que se esconde bem diante de nossos olhos
onde para chegar é preciso perder-se
nos sonhos mais loucos
que escondem os desejos da mente e coração


AS ALMAS ERRANTES

eu vi as almas perdidas na negra noite
rostos pálidos e sem cores
olhos negros encovados e profundos
caminhando numa escuridão sem fim
a luz da lua como manto e capuz
no ermo de um coração vazio
braços e pernas agitavam correntes
e suas vozes lembravam murmúrios e ganidos
andavam lentamente pela vastidão do infinito
através das casas e dos prédios
pelas ruas e pelos carros no asfalto
esperando para invadir os lares e as mentes
ao fundo o uivo dos lobos
à frente apelas o vácuo e estradas sem fim
nunca mais se pode ser o mesmo
pois vi os espectros perdidos na noite
corri de pavor em direção ao dia
enquanto eles buscavam apenas por ajuda




PEDRAS DE LUZ (ECLIPSE)

somos pedras de luz iluminando a densa metrópole
vagando quietos entre as ruas e as pontes
despontando quereres entre os viadutos
somos podres de ricos sem ter nenhum dinheiro
no momento tudo e nada são faces de uma moeda
dançarinos de tango sobre espadas de fogo
mendigos brincando sobre os tapetes vermelhos
direis ó vos que somos loucos?
apenas porque corremos a brincar na chuva
e porque desprezamos toda esta sociedade?
somos línguas de fogo que desmentem as fábulas
procurados bandidos e black blocks subversivos?
talvez porém não nos prenderão
porque eu sou o Dia e tu és a Noite
estamos vivendo ao vosso redor ó homens

o eclipse é o nosso breve mas duradouro beijo

DERRAMA-ME

derrama-me qual denso sangue sobre o estéril solo
longa cauda escarlate a estender-se sob os passos
lenta qual o compasso das horas
densa como os pensamentos mais secretos
voraz espraiando-se qual mar
espalha-me qual o sol numa manhã de inverno
rubra a espantar o negror de uma noite eterna
em névoas a cobrir os lagos escondidos nos bosques
sorve-me qual teu pão
ávida como a mais cruel das víboras
devora-me a pele e a carne até satisfazer-te por total
e que sigamos para todo o sempre qual galeão pirata
sem tempo ou espaço
vibrando como o som de uma louca orquestra ébria
tremulando tal qual cidade em terremoto
de hoje para sempre e meia volta até o início
qual o sabor da fruta vermelha partilhada num beijo




O POÇO E O PÊNDULO

há um poço onde pendem almas sem esperança
há uma lâmina em forma de pêndulo sobre seus corações
onde o sangue palpita nas veias
todos os amores e esperanças perdidas
todos os pecados e lamentações reveladas
um mar de pânico envolve nossos pensamentos
resfolegam cavalos de fogo em nossas veias
entre flores e jardins haverá restos de nossos dias?
mas eis que agora só a escuridão e o esquecimento
nada como em meio ao nada ao se lembrar de tudo
e no meu tudo o nada se aproxima



A NOITE DE UMA LÂMINA

uma guerreira. uma ninja, uma valente samurai
povoa a noite e assombra aos homens
uma mulher-dragão. um animal selvagem
que porém luta pelos pobres e rouba os ricos
aterroriza a noite. ah, lobos e hienas tremei!
uma negra pantera ruge de cólera
sedenta de sangue e perversa vingança
em tua pele as feridas dos homens
sob as tatuagens dos animais e frases que a guiam
todos a temem e fogem porém diviso seus olhos
na escuridão profundos e intensos
guardam lágrimas de dor sob toda a fúria
e medo de amar sob a violência
assim invade na noite agora meus pensamentos
acordando sozinho com sobressalto no escuro
teu toque é lâmina rasgando meu coração


IMPERMANÊNCIA

mudam-se os tempos entretanto permanece no peito
este fulgor carmim que é dúvida e desespero
ah! o velho sabor agridoce do suor da vida
o sofrimento atroz pela conquista deste pão!
a mente turvada de pensamentos inquietos
correndo qual cavalos bravios pelos prados afora
como um vendaval levando as folhas na tempestade
os dias nos trazem as coroas de louros
lado a lado com noites de frutas desperdiçadas
impermanência
dama cujo vestido de seda púrpura
desliza sobre a pele de nosso rosto
levando o sangue à cabeça e a sanidade até a lama
e no fim mudam-se os tempos

o que não muda são sempre o imprevisto e o acaso

TEMPO E ESPAÇO

houve um tempo em que não havia carne e sangue
não se falava em vida nem morte
tudo um contínuo existir na imensidão
não se conhecia o tempo nem o espaço
horas passavam? não pois não havia contagem
nem distância nem momento
apenas sombras e luz
dividiam uma a uma consigo a imensidão
sendo que eu mesmo no nada não havia vazio
não havia eu e você
apenas um e uma
apenas todos sem nome nem vírgula
mas já havia sorrisos em meio à alegria
já existiam sons e visões de luz
havia temor e tremor de tudo o que existia
mas não havia nomes
apenas um instante de breve lampejo
uma presença de conhecimento no meio de tudo
uma voz dos confins da distância chamava
ei-nos aqui
todos reunidos então estávamos
e então fez-se um plano
haveria uma terra para existir e crescer
haveria um tempo para a vida e para a morte
e um teste de fogo para voltarmos para casa
fez-se então a vida
fez-se o macho do pó e do lodo fértil
fez-se então a fêmea da carne e dos ossos
e fez-se então a nós vivendo aqui neste mundo
com a promessa de um fruto branco e eterno
sob a realidade da árvore de uma serpente de desespero
só não fez-se ainda o momento de nos juntarmos
sou teu Adão
tu és minha Eva

em qual jardim uniremos nossos destinos?

TEMOR ANTE O MUNDO

veio-me um tremor pálido de febre e vergonha
num breve momento
de dúvida e desespero nesta cidade
onde os templos ruíam e as colheitas queimavam
vi os carros sendo tragados
pelo asfalto quente a afundar sob o solo
vi prédios e casas espalharem-se em cinza
vi que a terra era irrigada por denso sangue
havia reis e sacerdotes
homens de negócios e filósofos distintos
segurando rédeas de homens escravos
dilacerando o caminho das mulheres inocentes
banindo crianças como animais no escuro
vi os mais lindos jardins que pendiam suspensos
fundados sobre os túmulos dos pobres
favelas ardiam sob as chamas do capital
onde surgiam as casas grandes e as senzalas
uma avenida de troncos plantou-se
para castigar os sonhadores e aqueles que pensam
pouco entendi
até que o calor e o escuro fecharam meus olhos
compreendi
eram a carne e o sangue por baixo da pele
era a chaga por baixo da máscara
o que eu vi era o pesadelo da vida real
antes de me entregar e assim partir deste mundo