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terça-feira, 31 de março de 2015

SILÊNCIO

Na vida há falas sempre tão ensaiadas
Monólogos na hora da tristeza
- A morte é sempre a única certeza –
Muitas dizem, desanimadas...
Levando à agonia e depressão.
Há os lábios que falam do bem e do mal
Confundindo a nossa mente
Canções de alegria e animação
Clamores roucos de bêbados
Guardando tantas aventuras e segredos...
Há os discursos do sábio e do insano
Do ditador e do clemente
No mundo há vozes para todas as coisas
Sons de malícia e diversão
Pois viver exige uma ação
E há de se escolher um caminho
- Quero escolher sozinho,
E o que eu quero agora, pois, é o silêncio.


ESPERANDO A NOITE CHEGAR

Tão interessante é este nosso tempo
As nossas vidas tão distantes
Enquanto as distâncias diminuem
Nossos passos tão mais longos
E as nossas pernas já não mais aguentam
Enquanto nosso mundo avança
E as fronteiras se acabam
Enquanto todos se abraçam
Numa tela de computador
A rede social testemunha o sentimento
Sem que haja olho no olho
E a paz se torna um comprimido
Pra curar a insônia e o estresse
Somos tudo e somos nada
Somos uma revolução de fachada
Tão interessante é este nosso dia,
Mal posso esperar a noite chegar.

O ERRADO E O CERTO

Os dias são cheios de sombras
Passados em total indiferença
A casa é tão imensa
E o nosso espaço tão pequeno
Em nosso mundo
Tudo está mais perto
Menos o nosso coração
Ainda há o errado e o certo?
Qual nosso desejo mais profundo?
Talvez os dias de luz intensa
Possam voltar à cena...
Antes que a solidão
Enfim nos enterre em escombros!

FACE DESENHADA NA NEVE

Uma face desenhada pela neve
- Uma sombra, uma ideia –
Devagar passa em minha mente

Depressa meus dedos escrevem
Palavras de sentimento contente:
Poemas, elegias, epopeias...

Mas como em sonho se desfaz,

Deixando a ilusão e a dor que traz...

PARA SEMPRE

Nada há que não se desfaz com o tempo.
Uma pintura, uma foto,
Uma página de um diário,
Um desenho gravado na neve
Ou um minuto de silêncio.
Devagar a água corre sob a mente
E leva tanta coisa embora...
Nossas casas um dia se desmoronam,
Nossas obras ficam para sempre guardadas
E nossos bens se perdem.
(O dinheiro? Esse nem sequer temos!)
Só o que fica é o próprio momento,
O presente, o nosso dia eterno.
Por quanto tempo o pra sempre vai durar?

A BUSCA DA VERDADE

A verdade é como uma gota d’água
Num oceano tão vasto e infinito
É aquilo que enfim faz diferença
Como um sorriso após a mágoa
Mesmo que se prefira a fantasia
Quais os sonhos para um novo dia?
A realidade é como ter um limite
Uma linha, a saber, se cruzar;
Entre o desejo e a firme crença
Não importa que o mundo limite
O pensamento; há o que está escrito,
E tudo o que ainda se pode sonhar...

SANGUE SOBRE A NEVE

Tudo em silêncio após a neve
Tudo calado na madrugada
A não ser um coração
Derramado em meio ao sangue
Ó neve branca,
Ó noite escura!
Qual o segredo que se escondeu?
Quem deu a vida,
Quem a perdeu?
As lágrimas pelo chão
Carregam olhos insones
Desejando gritar por trás
De tanta falsa paz
Tantos segredos
De tantas épocas atrás
Tantos cadáveres
Nos nossos pesadelos banais...
Tantos pecados, vindo à tona,
Tempestade a nos soterrar
Tudo é vida, tudo é morte,
Quem decide é o sentimento
- Eu decido pelo amor.

SOMBRAS NA NOITE

Não somos senão sombras
Na treva iluminada
Não somos senão dias
Quando o tempo acaba
Não somos senão escombros
Sob os prédios da cidade
Não somos senão estrelas
Cobertas pela noite
Somos apenas riscos corridos
Apenas histórias mal contadas
Viajantes sem saber da estrada
Não somos senão nós,
E sendo um ao outro já é o bastante.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A POESIA PRECISA DE TEMPO

“Romance, poesia, hera e liquens, precisam de ruínas para crescer”.
(Nathaniel Hawthorne)

A poesia precisa de tempo
A arte depende do viver
As asas da imaginação
Não se abrem em um só dia
Os maiores rios
Nascem de pequenas fontes
Pois a verdade
Pois o pensamento
O verdadeiro desejo
Florescem sobre a alma
Como pedras rolando na água
É sobre as ruínas
Como uma estátua de mármore
É debaixo das luzes
Que o coração se abre.

PARTINDO

Ela está partindo. Seus passos são apressados. Seus pés quase não tocam o chão. Seu desejo parece não estar mais ali. Parece não ser mais o de estar ali.
O rosto vermelho. Os olhos marejados. Os lábios trêmulos. O belo vestido branco. A pele pálida. Os longos cabelos negros... Que belo contraste! Esvoaçam pelo ar. Ao vento.  Mãos apressadas. Esforçam-se por recolher logo todas as coisas.
Senta-se na guarda da cama. Coloca as mãos no rosto. Recomeça a chorar. A mão na boca. Olhos para cima. Para baixo. Para todas as direções.
Há dor. Há tristeza. Há medo. Confusão. As íris verdes perdem-se num mar. De lágrimas. De segredos? De mistérios? De desejos mal resolvidos? Qual foi a trilha que encheu as solas de seus pés de espinhos? Quais foram os pedaços de vidro sobre os quais caminhou? As ideias... Tão confusas. Parece agora haver dúvida. Talvez... Não saiba qual o próximo passo. Talvez a mente já não esteja lúcida. Pode ser que esteja indecisa. Teria algo dado errado? Teria sonhado alto demais? Ou baixo de menos? Ah... Segredos dos corações humanos! Há que se perder para se encontrar. Mas algumas pessoas se perdem para não mais poder voltar. Vão longe demais. Por vezes ama-se demais. E pensa-se de menos. Por vezes há homens. Mulheres. Maldosos. Espíritos cruéis que não se contentam com a dor de sua própria alma. E por isso buscam o mal e o trazem para nós.
Qual teria sido sua trilha? Um coração partido? Uma promessa quebrada? Imagina-se que possa ter havido um príncipe. Encantado. Uma jura à luz da lua. Incontáveis noites. Sob o luar. Momentos em que os lábios se encostaram. Então a decepção? Um crepúsculo? Por vezes uma obra de arte pode estar podre por dentro. E quando cai de um pedestal se estilhaça. É quando descobrimos a verdade: estávamos sobre um castelo de areia. E o oceano da vida real o levou para longe... Para não mais voltar. Trouxe a dor. Pode ter sido uma criança. Um filho. Um menino. Uma menina. Alguém que deixou este mundo sem prévio aviso. Alguém que se perdeu na longa noite da eternidade. Quantas mães ninam berços vazios onde não há mais uma pequena alma? Quantas afogam a verdade na lembrança ao procurar um pouco de conforto? Ou pode ter sido algo um pouco diferente. Talvez tenha tentado apressar as coisas. Talvez alguém a tenha abandonado. E num ato de desespero – não com razão – tenha decidido impedir que aquela pequena criatura tenha vindo ao mundo.
Um acidente repentino. Uma doença maldosa que chega sem hora. Não se sabe. Talvez porque sejamos apenas pequenos humanos e não queiramos nos envolver. Talvez porque já tenhamos problemas demais.

Quem dera... Poder estar lá. Poder lhe falar. Pegá-la pela mão. Para sairmos dali. Quem dera poder ser mais forte! Mais corajoso? Oferecer meu ombro. Quem sabe poderia haver um caloroso abraço... Um profundo beijo. Ou talvez... Apenas talvez... Nosso próprio espelha ao nosso rosto. E então já é tarde demais. Pois ela já terá partido. E o coração sempre pensará: por que não consegui fazer nada?

AO LONGE UMA VOZ CHORA NA NOITE

Ao longe chora uma voz na noite. E nossos corações estão cansados. Doloridos. Nossas vidas são tão sofridas. Nossos olhos já estão rasos.
Ao longe uma voz chora na noite. E nós é quem pedimos socorro. Estamos presos. Pedimos controle. Da nossa liberdade.
Estamos presos. De mãos atadas. Perante um mundo. Que nos devora. Sem piedade. Sem amor. Arrasta-nos para esquinas feias. Mal sondadas. Arrasta-nos para sonhos que quebram. Para a falta de afeto. Para empregos que nos desperdiçam. Para sermos obcecados com os padrões do mundo. A riqueza. O poder. O corpo perfeito. A moda. A política. O pecado. Os roubos. Os vícios.
Ao longe chora uma voz na noite. E nós não ouvimos. Perdidos na vida. Leva-nos numa torrente de esgoto. Para o fundo do poço. Para as latrinas mais sujas.
Nossas famílias tornam-se cada vez menores em nossas enormes casas. Não mais conversamos. Não mais temos tempo. Não mais temos hora. Para nada. Corremos para cima e para baixo. O tempo todo.
Ao longe chora uma voz na noite. Mas os sons da madrugada não nos deixam ouvir. A música alta. As festas. As noitadas. Álcool e drogas agora são anestésicos. Uma noite fugaz com um total desconhecido. Uma total estranha. E amanhã reinarão as olheiras. As maquiagens borradas. O mau hálito. A dor de cabeça.
Ao longe chora uma voz na noite. E estamos tão ocupados... Sempre buscando informação. O tempo todo atrás de um novo sonho. Que logo se torna pesadelo. A nossa saúde é gasta. E nossas economias se vão na doença.
Ao longe chora uma voz na noite. Mas os lugares no mundo já estão colocados! Temos de ser perfeitos em tudo. Temos de dar conta de todas as coisas. Tudo vale a pena. Podemos ser chatos. Autoritários. Podemos descontar a mágoa e a frustração nas pessoas. Porque sempre estamos mais certos que os outros. Sempre o outro precisa me ouvir. Entender-me. E eu só preciso me libertar. Posso acelerar no farol vermelho. Passar por cima de quem estiver na frente. Posso humilhar meus servos como escravos. Aquela alma gêmea que mora conosco já não é mais ninguém. A não ser para fazer o trabalho sujo de casa.
Ao longe chora uma voz na noite... E qual é essa voz? De quem é esse murmúrio? Quando começou esse lamento? De repente todos param e olham. De repente as chuvas caem sobre nós. E vemos que somos todos iguais. De repente um momento de trégua... Um breve momento perante uma eternidade imutável. De repente surge um sorriso nos nossos lábios. Será que lembramos que somos irmãos? Será que lembramos que não somos perfeitos? Será que podemos olhar para o lado e nos reconhecer?
Uma voz que de fato chora. Uma voz que deseja mudança. Uma voz que se cansou de ser o que os outros querem. Uma voz que quer apenas ser livre. Quer ser feliz. Quer ser poderosa. Quer deixar a escuridão.
Uma voz que não mais suporta ser sufocada. Uma fala mansa que canta tolas canções de amor. Uma pedra que rola de uma montanha para destruir nossos muros. Nossos impérios. Nossas mentiras. Um clamor que pede para que não o abandonemos. Que pede: Seja feliz! Seja como você é! Corra atrás de seus sonhos! Arrisque! Abandone o passado.
Basta que lembremos que a voz chora na noite. E que esta pode ser a nossa própria voz. E por que, pergunto, não a ouvimos?


A FIGURA NA AREIA

Caminha. Pela praia. Devagar. Passos curtos. Pegadas na areia. Tão pequenas... Tão jovens... Será jovem ou madura? Terá o frescor do botão? Ou a madureza da rosa? O sol ao longe me impede o detalhe. Divirto-me apenas ao pensar...
O caminhar meio perdido. Meio ausente. Vestido branco. A barra ondula com o vento. Há areia entre os pés. Os vãos dos dedos no entanto não parecem se preocupar.
Cabelos soltos. Voam ao vento. Longos e negros. Não como a noite. Neles há vida. Neles há cachos.
O pescoço alto. Altivo. A cabeça para trás. O ar de confiança. Lábios cerrados e serenos. Um rosto jovem. A pele doura-se no sol. Os braços devagar ondulam. O sol se põe atrás de si. O perfil vai tornando-se silhueta.
Olhos castanhos. Contemplam de longe o azul do mar. Quem sabe o que se passará nesses olhos? Lágrimas... De longe vejo lágrimas.
Quem sabe o que se passará neste momento? Quem sabe as pequenas coisas que estarão nesta mente?
Talvez esteja à espera de um amado. De um amante. Um amor perdido? Uma decepção? Alguém que se foi?
Mas nada mais me resta a imaginar... Porque lá vem a noite. E devagar a minha visão se apaga. Devagar não mais avisto a figura na areia. Nas dunas da praia. E talvez eu seja a alma que chora. Enquanto chega a noite.