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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Histórias e Lágrimas

Há tanta história por trás de uma lágrima
Um conto, um segredo.
Não conto tão cedo a verdade.

Há vitória e derrota ao virar uma página
Da alegria ao medo
Escolhida, a dedo, por casualidade.

Somos gota de tinta manchando o papel.
Como será a história a se formar?
Há um mundo inteiro pra gente escrever
E esquecer a solidão de tanto sonhar...

As palavras são pedras, a folha é o cinzel.

Somos como a água entre as rochas,
Em meio ao nada esperamos por tudo.
Somos como cinzas que ardem nas tochas
Em meio à noite aguardamos tão mudos

Como as lendas que viram história
Vamos nos juntando no tempo, na memória...

Em meio às luzes ficamos tão cegos;
Em meio à vitória devagar eu me entrego.

Vivemos apenas pensando no fim
E escrevemos a morte pensando na vida...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Fio de Seda

A nossa vida é um pano de seda
Sobre o qual tecemos nosso caminho
Tudo sobre a sua face
Todas as coisas em sua frente.

Mas os bordados
Mas os brocados
Mas os sonhos e ilusões

Um dia encontram a realidade
O mundo anormal
A verdade imoral.

E os vestidos se rasgam
As camisas desfiam
As cores se desbotam...

E os homens não se importam
E as tragédias ficam pra trás
E as atitudes já não importam mais.

Só nos restam as rocas e fiadeiras
E os dedos calejados a recomeçar.

Começo? Fim?
Onde começa e termina o tear?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Corações Em Chamas

Este é um tempo perigoso, a razão se perdeu.
Por isso a esperança nos enlouqueceu.
Nos campos e prados a chuva não vem
Faltará comida nos armazéns
Nos subúrbios há dor e medo
Nas casas todos dormem tão cedo...
No governo o sangue escorre,
Cada vez que disputas ocorrem.
Corre agora pelo céu um trovão verde-esmeralda
É a revolta de todo um povo
Contra os seus medos guardados.
Corre agora pelos lábios o sabor do tempo vivido.
Um doce, mas dolorido gosto, amortece os sentidos.
Trouxe o beijo da liberdade, somos todos crianças.
É a doce bênção da confiança entre os homens
- É uma aliança.
Corre, agora, solto às ruas, entorpecido e semi adormecido,
Doido e despido, um anjo de fogo enlouquecido.
Corre agora, solto sem amarras,
Um espírito de luz.
Dançando! Valseando!
Tão doce!  Encanta o povo quanto canta.
Corre, agora, em pele nua, um desejo, que reluz,
Sonho há muito esquecido.
Somos um coração em chamas pulsando em compasso
Somos estrelas do mar flutuando no espaço
Somos, do amor, a guerra em tempos de paz.
Somos um sonho em meio a este mundo real
Somos calor no frio de um vazio banal
Somos a vida que em vão a morte desfaz...

Os Imortais

No início de tudo éramos apenas você e eu, éramos nós,
No tempo em que o tempo ainda não havia
O que existia era a aurora dos dias e dos nossos sonhos.
No início de tudo havia o nada; apenas estávamos nós.
Mas na alvorada a gente sabia que existia
Os nossos olhos, os nossos passos e lábios risonhos.
No começo de tudo não havia casas, palácios,
Não havia riquezas, nem interesses, nem desejos.
A vida era ser feliz andando pelas ruas,
Contemplando as nuvens e pensando no momento.
No início havia apenas todo o nosso pensamento...
Mas então chegou o tempo, duro e tão infiel;
Chegaram todas as coisas uma a uma, sem pedir.
Veio o sol, veio a lua e as estrelas,
E então nos distraíamos de tanto olhá-las, tanto vê-las...
E nos esquecíamos um do outro, mesmo lado a lado,
E nos deixávamos por muitos e longos instantes...
Havia a beleza, mas por vezes estava-se tão distante...
Não percebemos o que havia sido ignorado.
Chegaram as areias, as águas, as nuvens e tempestades;
Vieram os medos e as dores de se estar só.
Não houve tempo para estarmos reunidos outra vez...
Então vieram as plantas, as árvores, a grama,
Os homens, as mulheres e também as crianças...
De repente não havia mais espaço para nós neste lugar,
Embora já estivéssemos longe há tempos, sem perceber.
Então vieram as serpentes e as pragas da vida,
Veio a labuta e as dores, o cansaço, e todas as coisas.
Enfim, veio a morte após toda esta vida.
Enfim, vieram as areias a nos cobrir o que restou;
E devagar veio um assombro, maior que o que ficou...
Juntos estávamos lado a lado, sobre a terra,
Mesmo após tudo o que houve, e que nos encerra.
Talvez ninguém pensasse que isso poderia acontecer,
Mas foi porque foi dito antes de tudo começar:
Para uma Terra deveríamos, pois, descer,
E todas as coisas seriam para nosso sentimento testar...

Rochas No Vendaval

Na noite os corações partidos escondem-se nas sombras
Fugindo das luzes, esperando um amanhã.
Ouvem-se sons de lágrima em todo lugar...
Há vidas sob o solo, sob a tempestade, sob os escombros,
Enquanto os poderosos levam existências vãs...
Quem poderá nesse pesadelo sonhar?
Amantes partidos se vão, partem para o adeus.
Crianças abandonadas achegam-se, juntas na solidão.
Na correria há homens vagarosos com os irmãos seus,
E apenas a chuva, e apenas o vento, e apenas a escuridão...
Como esconder do mundo as crianças morrendo de fome,
Como ocultar os feridos que dormem sobre as pontes?
Como esquecer os assassinos que andam livres pela esquina?
Há os que ocultam cada crime de um homem
Expondo os inocentes em todas as suas fontes.
E a morte e a dores são dos senhores do poder as sinas...
Não se olha pra trás
O amor já se tornou fraqueza
O progresso é a lei, o povo busca o futuro.
Na noite o frio afasta os corações.
Não importa o que faz
Pra se chegar a toda realeza.
Pois o sentimento é esconder as emoções
Como o gelo que se desfaz sobre os holofotes, as tochas,
E tantos assistem o mundo real sonhando encima do muro.
No vendaval, não sobra rocha sobre rocha.

O Vidente

Há um homem isolado do mundo que caminha sem parar.
Visto como vagabundo, que ninguém consegue encontrar.
Ele e velho como o mundo
E já viu tudo começar.
Ele guarda um segredo do qual se tem medo,
Mas que um dia, há de se revelar.
Ele guarda os segredos do Criador.
Ele vê o destino do rei e de seu traidor,
Ele sabe quem perde e quem ganha.
Os sinos tocam para a sua chegada anunciar.
As aves do céu voam para lhe saudar.
Sua vida foi profana, mas seu destino é sagrado.
Ele guarda os caminhos de todo um povo
Passa a vida a nos deixar viver.
Porém traz o gosto amargo de quem nunca viveu.
Ele guarda os segredos da vida, pois viu tudo acontecer.
Esse homem, porém, se perdeu...



Condenado

Marcha sobre a terra sangrada pela dor
A alma do desabrigado ardendo sem cor.
A verdade é uma cobra
Que se ignora numa guerra.
Para os bravos é açoite;
Em suas mentes abre remorsos desmedidos.
Havia comida de sobra, mas não se comeu,
Por nojo.
Todo dia e toda noite os corpos das crianças
Viram ração canina.
Ele foi à batalha
E por seu povo lutou por amor.
Matou mas morreu... Trespassado!
... Ainda se escuta seu grito de horror.
Condenado vaga entre céu e purgatório
Pois tirou vidas sem hesitar
E gostou de ver lágrimas caindo.
Pequeno menino... Ainda se iludindo?
Por você já não vão chorar.
Já vai tarde;
Pois seu tempo é um tenebroso inverno...


Bússola Falsa

Cada vez que acordo ouço calado a tempestade de vozes
Vindas de todo lugar.
Caem, feito trovões, sons de gritos, lamentos,
Como o céu a desmoronar

- Às vezes só histórias a se fechar.

Brilham igual sonar luzes a me ofuscar
Qual relâmpagos, apenas, logo a se apagar.

Meu mundo é uma nuvem, assusta quem olha de longe.
Meu tempo é bussola falsa, sem porquê, quando ou onde.
Cada vez que canto, ponho pra fora rancor e pesadelos.

Sei, no entanto,
E afasto hoje, sempre e agora aquele que puder vê-los.
Quando encaro o espelho vejo aquele menino
Perdido e franzino
Que nunca soube direito o que era amar.

Quando derramei meu sangue no chão,
Senti nojo e paixão pelo que fui me tornar.
Quando deixei a raiva fluir sabia que era perigoso.
Por isso tentei lutar...

Quando senti o amor pulsar sabia que era impossível.
Por isso fui irredutível...
Quando dormi senti chegar a felicidade
Mas o sonho acabou.

Achei melhor ficar quieto igual criança
Deitado sob as cobertas esperando uma fada chegar,
Mas a espera é longa demais...

Cada Abismo Sobre Nós

Cada passo meu é um risco a mais, viro uma página por dia.
Não sei se estás comigo,
Sei que Deus nos deu, aliás, a virtude que queria.
Sei que estás triste,
Mas porque me parar assim, como pêndulo usado?
Cada abismo sobre nós é um desafio,
Mas nosso sangue é um preço alto demais...
Não sei se percebestes, mas o tempo é finito,
E a vida passa rápido, tanto faz...
Não sei se percebestes, mas um sonho vira pesadelo maldito,
Quando grita pra se realizar preso sob as águas de um cais.
Às vezes é bom se sentir cru e sem preparo para a vida.
Só assim se põe a nu o ridículo de um nada vivido.
Às vezes é bom se jogar
De cabeça no abismo, a descer...
Sem ver o chão para se tocar,
Apenas para se sentir em queda livre,
Ver que nada há para se perder se não há o que ganhar.

A Pior Coisa

A pior coisa que eu posso imaginar
É me tornar um velho triste
De tanto trabalhar.
É virar um porco rude
Estressado com a vida
Carregando na alma as feridas
De uma vida sem sonhar.
É olhar no espelho e ver,
Sem me assustar
Um rosto desfigurado
Por amargura envelhecida.
Isso é porque agora
Estou à frente de um labirinto
Meu caminho é incerto
Tanto faz se é longe ou perto.
É a hora de encarar a vida
Dar a cara pra bater (e apanhar),
É fácil se perder numa esquina,
E se deixar vencer.
A pior coisa que eu posso imaginar
É ser pisado pelos homens
Que querem me escravizar.
A pior coisa que vejo à minha frente
É ter minha árvore do futuro
Ser podada de repente.
Isso é porque agora,
Dentro de mim, prudente,
Há uma nova semente
Que insiste em germinar.
O sonho tem pressa,
E confuso, porém, ora, alegre e tristonho,
Quero ir atrás do meu ideal.
Não peço muito, é quase nada,
Não encare como piada.
Quero ser feliz, escolher o meu amor.
Cada dia será um diamante raro
Precioso e belo de se ver.
Cada tristeza ficará guardada
Dentro de uma garrafa de fel,
Pra logo se poder esquecer.