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quinta-feira, 24 de março de 2016

SOBRE A CRISE

era um momento de paixões tão perigosas
saliva venenosa penetrando nas veias
chamas de discórdia nas telas e mouses
nós e eles
armados e agressivos
rangendo os dentes com argumentos
homens poderosos clamam justiça
enterrando o passado
heróis se erguem na areia e caem na chuva
lá havia ressentimento e cólera
a casa grande e a senzala em duelo
o presidente e o bandido na mesma moeda
platéias armando espetáculos nos teatros
os hipócritas tentavam limpar o piso com lama
onde todos estavam juntos e divididos
como estrelas vermelhas (de) cadentes
como pássaro de asas (de orgulho) feridas

- o dia é de crise
a crise é o agora

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ONDA QUE QUEBRA NA AREIA

faz-se neste momento aquele marulho
aquele som de onda do mar
aquela espuma de prata nas pedras
faz-se o aroma da maresia
embalando os sonhos e as vontades
deixando nos lábios aquele gosto
aquele sabor de maresia e movimento
a vida encontrando-se no agora
é velocidade e ação sem fim
todas as coisas aqui ao mesmo tempo
dançando nesta pista insana
do dia a dia
em que lugar agora estamos?
somos resíduos de conchas na areia?
onda que morre na areia
vidas que vão ficando para trás
ou prancha que quebra nos tubos?

TELAS DA MUDANÇA

pinto um quadro as com minhas próprias cores
misturas de todas as formas e desenhos
deslizo os pincéis com carinho e amor
numa tela de mil tecidos e de molduras
dou forma a mil esboços e traçados
alguns choram mares de tristeza
outros trazem o sol e manhã de alegria
hei de criar mares de fogo
céus de água onde circulam navios
carruagens de conchas e castelos de areia
posso sonhar em reencontrar entes perdidos
moldo-os qual escultor no papel
posso unir espírito e carne
prever o futuro e evitar o passado
dou forma a uma vida
dúvida e resposta moram no mesmo espaço
sol e lua encontram-se em um abraço
as ondas do oceano a se beijar na madrugada
jogo com luz e sombra
dois corpos opostos no mesmo tempo e espaço
minhas flores e frutos abrem-se
mesmo no vazio e no deserto
as mãos tamborilam agitadas e febris
a testa encharca-se de suor
uma obra prima toma sua forma devagar
minha vida -
sucessão de casos e acasos
onde apenas a mudança há de permanecer








MAIS QUE UM MINUTO

não é necessário mais do que um minuto
para parar um trânsito
para despertar paixões e inveja
e fazer as veias saltarem nos pulsos
não é necessário mais que um instante
para que uma luz se apague
uma vela provoque um incêndio
uma luta se transforme num beijo
o amanhecer vem tão lento e inesperado
logo toma os céus e a natureza
uma flor desabrocha e ganha os olhares
desperta invejas
atrai amores de borboletas e abelhas
segue pelo caminho da terra em semanas
por que então leva-se uma vida inteira
atrás do que passa e se desfaz?


POR BAIXO DAS TINTAS

uma jovem jaz numa tela suspensa na parede
teu rosto é pureza e inocência
porém teu olhar é sombra e perdição
teu riso mostra-se mais misterioso
com as luzes da cidade em tua janela
tantos passam a seu redor
muitos não a veem ou entendem
porém detenho-me e perco-me em teu semblante
olho no olho
toque no toque
lábio no lábio...
dize-me ó pintura densa e arrogante
quais segredos guardou teu mestre?
quais histórias escondeste dos que a observam?
dize-me ó quadro suspenso em tela
que guardas por baixo das tintas?
teu vermelho esconde uma paixão?
teu azul intenso oculta uma paz buscada?
o verde das matas reflete teus sonhos?
o ouro e a escarlata são tua cobiça?
foste feita à base numa paixão
ou apenas a ganância e vaidade dos homens?
buscais sugar-me ó guaches e aquarelas?
antes me deixai entrar em teu reino
banhar-me em tuas águas e brincar na areia
e que a tua companhia seja-me eterna



ASAS QUE ME CORTASTE

sou pedra tocada por um anjo de lava
sou vaso de barro partido espalhado
recolho meus pedaços pelo piso da casa
a vida fez-me visitar
aquele lugar silencioso e escuro
aquela sombra que fiz questão de esconder
mergulhei até o final do poço
de lá voltei tingido de cores perversas
quero sentir um coração pulsando
quero tocar uma alma inocente
voltar a sentir a paz e a afeição
pois éramos pássaros presos na gaiola
hoje houve um trato quebrado
e aqui permaneci sozinho como escravo
o coração sente ódio e desprezo
a cólera contamina os sentidos e a razão
uma língua desliza pelo meu rosto
rasga-me com saliva envenenada
toque de fogo e de lâmina afiada
navalha que desce certeira
diga-me pois
podes lembrar-se das asas que me cortaste?



FULGOR DE UMA ROSA

agarro-me às pétalas caídas de tuas flores
luto para cavalgar os insetos
busco domar os bravos rios e as chamas
vejo e aprendo com o planar dos pássaros
porém quebro-me como onda ao chegar à praia
sob o mar faço castelo de areia
na terra faço fortaleza de chamas
espalho velas em vigília pela esquina
domo os fantasmas e sombras no pensamento
no entanto sufoco-me sob longas palavras
hei de voar tranquilo entre falcões e águias
os tigres e lobos conhecem-me
venenos de naja e escorpião não me vencem
a tudo resisto pois não me importo
porém o tremor que habita em minha veia
é este querer que consome a alma
aperta-me o pescoço e turva os sentidos
ensina-me a lidar com o fulgor de uma rosa
a vida feriu-me demais entre tantos espinhos