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sábado, 12 de julho de 2014

Em Meio a Todas as Coisas

Homens lutam sem fé contra o vazio
No frio da solidão. Passam a vida
Frágil, leve e desperdiçada. Tão sombrio
É o retrato de suas almas doloridas.

Mulheres e crianças seguem ressentidas
Numa vida de vaguidão. Corre qual rio;
Sentimentos despedaçados. A água, caída,
Das fontes de rancores, tão fugidios!

Pois em nós às vezes este mundo
Nos prega peças de grande mau gosto;
Os nossos sonhos viram medo profundo

Ao não se realizarem. E aquele suposto
Sabor da vitória vira tamanha depressão.
Em meio a todas as coisas só achamos solidão...

Eternos Momentos

Que entre a chuva com seu manto frio sobre a Terra
Que ao coração em guerra possa então trazer a paz
Que entre o vento a levar da mente tudo o que traz
A dor que faz sentir a solidão que por aqui encerra.

Que entre pelo peito um rio de lágrimas tão puras
Que possa carregar a tristeza e a raiva em seu leito
Que leve ao oceano tudo aquilo o que já sem jeito
Quebrou-se ao cair feito a neve vinda das alturas.

Que chegue então o tempo, e passe, sem demora,
Que leve então embora esse tristes sentimentos –
A tristeza e o frio, o vazio e a vileza, sentidos agora.

Que todas as coisas ajudem, pois, apenas a esquecer.
Mas por que tudo após tantos desapontamentos
Parecem apenas eternos momentos de tanto sofrer?

Flores Urbanas

A cidade se abre a minha volta como uma flor.
Prédios, casas, carros, todas as coisas se movem.
Sobre os pés o asfalto e o concreto se revolvem;
A velocidade é da urbe, o licor...
As luzes resplandecem desde o alto dos céus.
Nada parece deter as coisas quando passo.
Meus passos caminham com pressa pelas pedras.
A metrópole cresce, desde o mar até as serras:
Busco, em silêncio, seguir aos seus traços...
Há pedras que vejo de relance, crescendo,
Há gotas de chuva que viram mares nas calçadas.
Sinto-me gota de orvalho sobre as folhas.
Sinto-me rei em frente aos semáforos...
Toda a cidade está à espera de nossa passagem...
Entro num trem, passo no metrô;
Nas curvas da vida, pra onde eu vou?
Há opulência e neons por todas as partes.
Há sons de risos vindos do poder e dinheiro.
Perguntas ao vento, longos pensamentos...
Onde estão os rostos da cidade que já não vejo?
Onde estão as gotas do suor dos trabalhadores?
Há desejo à vista em tantos abraços e beijos;
Há, no que vejo, qualquer traço de um amor?
Há uma gota de sangue por trás das janelas,
Através das árvores plantadas no centro.
Há uma imagem antiga, borrada, não me lembro...
Sou estrangeiro em uma terra estranha, perdido,
E a vida se passa tão veloz, como num devaneio.
A cidade se abriu tão devagar, em seus mistérios;
A metrópole se fechou tão repentina, deixou-me de fora.
Essa não é mais a minha terra; adeus!
Parece haver aqui uma cidade dos sonhos;
A realidade talvez seja apenas meu grande pesadelo...

Flutuando

Pairando aqui agora no ar
Sentimentos confusos
Casas e amores
De um passado distante
Onde estamos?
Pra onde vamos?
Somos troncos
Madeira leve
Sobre as águas
Sobre os rios
Qual é o nosso oceano?
O que nos reservam os anos?
Somos lobo uivante
Somos pobres dançantes
Que querem fugir
Para onde vamos, amor?

Fundo do Poço

O fundo do poço é um buraco vazio
Onde apenas há uma leve lembrança
Dos dias felizes
Dos momentos alegres
Dos amores e dos sentimentos.
O final é um ponto no escuro
E a visão do sol e da lua
Parece apenas uma ilusão.
Lá onde o ar é pesado
Onde a poeira reina nos corações
E onde repousam os segredos,
As mágoas e medos que se imaginou.
Não há medo, pois não há esperança.
Não há dor, pois não há lembrança.
Não há futuro, pois não há passado.
Não há fuga, pois não há procurado.
Quem ousará descer até lá?
Quem ousará enfrentar os ratos
As cobras, as sombras?
Quem sonha em um dia voltar?

Momentos de Decisão

É quando os olhos se encontram no fim da escuridão
É quando os homens buscam da vida a razão
É quando as vozes no fim do tempo se mostram
É quando os lábios e as mãos se encostam
É quando as mentiras e as verdades se encontram
É quando acabam todas as eternas distâncias
É quando a certeza vence toda a inconstância
É quando Terra e Lua se encontram em abraço
É quando os fracos vencem, fortes em descompasso
É quando não mais se busca do túnel o final
É quando se avista do farol uma luz e um sinal
É quando os navios no horizonte se perdem
É quando as naves até o fim do espaço se erguem
É quando caem pelo chão as estrelas do céu
É quando a beleza se revela por trás desse véu
É quando o homem pela dança se deixa levar
É como a solidão para um homem sem lar
É como o passado a perseguir nosso presente
É como um futuro obscuro bem em nossa frente
É como o palhaço na corda à beira do abismo
É como ter caridade para enfrentar o egoísmo
É quando as presas lutam contra as víboras
É quando as vítimas destroem as plantas carnívoras
É quando o poderoso se alia aos pobres
É quando o vilão se enche de sentimentos nobres
É quando o espaço então se funde ao tempo –
É quando a vida se define por um único momento.

Não há Felicidade sem Trilhar uma Rota Sofrida

Não pode haver o ódio se não houver o amor
Não pode haver a paz se não houver a guerra
Não pode haver o mar se não houver a terra
Não pode haver a alegria sem haver a dor.

Não pode haver som se não houver silêncio
Não pode haver medo sem existir coragem
Não pode haver prudência sem voragem
Não pode haver calma sem haver prudência.

Pois tudo o que nos marca é a oposição.
Tudo tem sua hora marcada e seu lugar
E tudo busca nos trazer para a sua direção.

Não há felicidade sem trilhar uma rota sofrida.
Como, pois, há de se imaginar,
Que haja então a morte sem haver a vida?

Olhares Perdidos na Multidão

Os olhares se refletem no vasto, na vaguidão.
Nas sombras se perdem em vaga confusão...
E os passos se apertam procurando por perto
Um rumo certo para então se encontrar...

E agora sem saber, como, pois, responder:
Como saber quem sou eu, e quem é você,
Quem está ao nosso lado, pra poder ajudar?
Como saber quem é o tolo, quem é o esperto?

Os sentidos se perdem numa imensidão   
A correria nos faz não mais dar nossas mãos
As vidas nos levam pra estranhos caminhos
E por fim, em meio a todos ficamos sozinhos...

E agora sem saber, como, pois, nos dizer:
Como o nosso coração, então, conhecer,
Como sabemos em quem poder confiar?
O mundo é um lugar onde tudo é incerto...

Desde o passado nossa língua é incompleta
Anunciadas são as nossas falhas secretas
Para as perguntas não há tantas respostas -
A verdade é uma ilusão desmedida e imposta.

Piratas

Lutemos, oh! Em desespero e em total urgência!
Lutemos contra os desafios de todo o mundo!
Vençamos as feras que ferem sem clemência,
Vençamos os passos que passam por essa terra,
Ganhemos com fúria e força essa guerra,
Domemos à volta todo esse espaço profundo!
Lutemos com coragem, encarando os animais!
Disputemos contra os monstros, desde cedo;
Sejamos mais e mais fiéis a esses nobres ideais!
Sonhemos com todas as recompensas dos céus,
Sonhemos em rasgar todos os sombrios véus,
Com espadas e escudos, deixemos o medo!
Que possamos vencer agora toda a escuridão!
Que possamos vencer agora toda a vaidade!
Que possamos dominar o poder da podridão,
Lutando contra a força dos mais poderosos,
Levando a verdade para os mais mentirosos,
Libertando, restaurando a paz para essa cidade!
Lutemos igual aos piratas contra os tubarões
Lutemos com ira contra as plantas carnívoras
Vençamos com ânimo todos magos e dragões
Rasguemos ao jugo das árvores e dos cipós
Vençamos a maldade que por fim há na voz
Dos que envenenam a mente como as víboras!
E, no final, quando todos estiverem vencidos,
Quando todos os desafios forem superados,
Quando já curadas todas as nossas feridas,
Que possamos, juntos, guerrear a última batalha:
A da vida que nos cobre como a uma mortalha,
E na morte vençamos, para sempre abraçados!

Por Trás de Tantos Olhos

A moda agora é criar gente padronizada
De par em par
Prontos pra aguentar televisão
A pornografia e a decepção
Não saber quem você é, não conhecer quem são.
Os filhos bebem sangue direto na mamadeira
- São a violência e a maldade
Que os pais lhes ensinaram.
Dentro de tantos olhos tantas crianças veem
Um mundo cruel,
Marcado de sujeira e fel.
Geração perdida
Há um buraco negro em que nos afundaram.
Nossos pais já não são mais os heróis
- Cresceram tão quebrados
Não sabem nem quem são...
Qual é nosso futuro, qual é o seu presente?
Eu só tenho meu carinho e meu medo
E um par de ouvidos pra vocês.
Por trás de tantos olhos existem corações.


Tempo e Eterna Espera

Como um breve momento perdido no tempo e espaço
Há na imensidão encontros que nos fazem refletir.
Como um fugaz pestanejar dos olhos na escuridão
Há na solidão amores que não se fazem esquecer.
E há as flores nos mangues que não querem perecer...
Como um leve sentimento entre os perdidos passos
Há ainda em nossos dias verdades a se descobrir
Como um simples aperto, um encontro entre as mãos.
Entre as feras lutamos entre as víboras e feros leões
Entre os mais cruéis dragões e os monstros no escuro.
Enfrentamos as víboras e as plantas carnívoras,
As nuvens das tempestades e selvagens pelo espaço.
Sempre há os dias em que os sábios perdem a razão...
E as recompensas parecem ser o vazio no futuro.
As nossas direções assim tão perdidas em descompasso
Seguindo pelas mais desencontradas direções.
E por meros instantes tão fugazes neste dia a dia
Vemos o passado a se tornar presente e a se repetir.
Onde estão todos aqueles desejos que pela mente
Passavam e então nos guiavam para o horizonte?
Sempre há um desafino nessa nossa canção.
Os problemas parecem nunca chegar a seu fim.
A verdade padece tão difícil de acreditarmos enfim.
Para onde foram aqueles planos, ideias, de repente
Fazendo-nos subir do mar aos mais altos montes?
Por que não se encontra respostas nessa busca sincera?
Quem somos nós em meio à neblina, a toda essa cortina,
Que terá feito todos os caminhos a se dispersarem?
Mas o tempo e a vida fazem as ideias se dissiparem;
Mas o que sobra é apenas o tempo e a eterna espera...

Depois do Sonho

Os nossos pais nos banharam pelos nossos calcanhares
E aquele ponto ficou escondido
Gerando os nossos defeitos tão escondidos de
Nossos amigos
Tão aparentes nos sonhos ingratos...
Nosso espelho é deformado,
Mas nossa vida depende de consertá-lo
Os nossos grupos da infância e as tribos da juventude
Nos impuseram uma ditadura
Que nos fez querer ser iguais...
E de repente os cabelos crescem
E os bigodes e decotes aparecem,
Rosas perdidos na bebedeira, festança da madrugada.
Somos adultos, hoje.
Será que somos alguém?
Se não sei quem sou, como sei pra onde vou,
Sem mudar de ideia?


Asas da Liberdade

Há aves com as mais variadas penas, de todas as cores.
Plumas vermelhas e verdes, violetas e azul anil...
Seu canto e alegria espantam todas as nossas dores,
Sua beleza é mais do que nunca, jamais, alguém já viu...

Quanto mais as penas brilham, menos se quer uma gaiola.
E mais alto os pássaros querem poder voar, e voar...
A liberdade é como uma canção tocada nessa viola;
É nossa criação, nossa paixão, nosso amor a nos guiar...

Há também entre nós aqueles que querem seu rumo,
E conseguem se destacar em meio a toda multidão.
Procuram se medir, apenas, pelo seu próprio prumo.

Pois o mundo, a todos nós, tenta prender, e enjaular...
Mas, por mais que se viva, assim, preso na solidão,
Que os nossos sonhos e desejos sejam penas a brilhar...


Águas Vermelhas

Águas vermelhas correm. Pelo chão. Pelas pedras.
Fluem devagar pelas valas de todas as calçadas.
Passam então pelo centro, passam pelos prédios,
Esgueiram-se pelos nossos carros, ônibus e túneis.
Rios rubros correm pela cidade na noite,
Em meio a este ar tão frio da madrugada.
Brilham e refulgem sob as luzes do centro,
Sobre os comércios e as pontes.
Lá estão, entrando pelas portas fechadas,
Subindo os elevadores até as coberturas, sacadas.
Lá estão eles, lavam todos os nossos passos,
Matam a sede e a fome dos empresários,
Dos ricos, dos estudados e dos milionários.
Descem de onde? De que lugar?
Dos sonhos? Do amor? Do medo? Da morte?
Cada vez mais vinho, cada vez mais escarlate,
Há lagos que se formam das ruas e marquises.
Cada vez mais sangue, mais tingidos,
Vão saindo do fundo do chão, da terra e do mar.
De onde vêm? De onde saem?
Das grutas que já nos esquecemos no solo?
Não; antes se formam sobre as casas,
Sob os bairros e sob as vidas de fachada.
Antes se formam da fome, da miséria,
Antes surgem da dor, do trabalho escravo,
Feridas nas costas nos homens e seus pecados.
E as águas vermelhas tomam, de assalto, a cidade,
Correm no leito das valas e dos córregos,
Afogando tudo em ondas gigantes.
Rubra é a enchente, escarlate é o pesadelo,
Vindo da dor alheia e do pecado,
Vindo do que quisemos tanto ocultar...
Segurai-vos! Abancai-vos! A terra está sumindo,
Enquanto os pobres e fracos se vingam,
Enquanto a natureza ri e se vinga com nosso fim.

A Liberdade é Minha Prisão

Loucura é ir contra todo o sistema
Parece tão simples entrar nesse esquema.
Insano é esse viver dentro do escuro
Parece normal ficar sobre o muro.
Querer ser diferente
Um jeito só da gente
Parece querer ser tão normal.
E então vem a dura batalha
Que pelo mundo nos espalha.
O espelho é a luta mais desigual...
Deixai-me voar ao redor da lua!
Deixai-me correr até o final da rua!
A realidade é sensação que se quer esquecer
O sonho é voo na imensidão
A liberdade é minha prisão
A vida é ilusão tão doce de viver...
Oh! Luzes da noite, mostrai-nos a direção!
Oh! Luzes da noite, ajuntai-nos nesta solidão!
E então voar além do pensamento
Nas asas de anjos inventados
Parece a solução perfeita,
Parece ser o jeito para os corações marcados.
Então toda essa mágoa flui qual ribeirão,
Em águas, leitos nas ruas da cidade.
E então junto ao meu peito, sentir teu ombro,
Insuspeito, é um momento de eternidade.

À Flor da Pele

Na pele ficam eternizadas as nossas emoções
Os nossos desejos e todos os nossos passos
Por onde passamos ficam nossas sensações
E se prendem nessa nossa alma como laços.

No rosto ficam todos os nossos sentimentos
Fica a distância de tudo que se esperou
Cada dia nosso com seus passos e momentos
Como um retrato de tudo o que ficou.

Cada parte nossa é um retrato de uma vida
- os olhos, os lábios, os sorrisos e as mãos –
E todas aquelas emoções por nós sentidas

Como o amor, o afeto, a dor e até a solidão.
Mas com tantos sentimentos, será que a vida
Não revela aquilo que está no nosso coração?