Águas vermelhas correm. Pelo chão.
Pelas pedras.
Fluem devagar pelas valas de todas as
calçadas.
Passam então pelo centro, passam pelos
prédios,
Esgueiram-se pelos nossos carros,
ônibus e túneis.
Rios rubros correm pela cidade na
noite,
Em meio a este ar tão frio da
madrugada.
Brilham e refulgem sob as luzes do
centro,
Sobre os comércios e as pontes.
Lá estão, entrando pelas portas
fechadas,
Subindo os elevadores até as
coberturas, sacadas.
Lá estão eles, lavam todos os nossos
passos,
Matam a sede e a fome dos empresários,
Dos ricos, dos estudados e dos
milionários.
Descem de onde? De que lugar?
Dos sonhos? Do amor? Do medo? Da morte?
Cada vez mais vinho, cada vez mais
escarlate,
Há lagos que se formam das ruas e
marquises.
Cada vez mais sangue, mais tingidos,
Vão saindo do fundo do chão, da terra e
do mar.
De onde vêm? De onde saem?
Das grutas que já nos esquecemos no
solo?
Não; antes se formam sobre as casas,
Sob os bairros e sob as vidas de
fachada.
Antes se formam da fome, da miséria,
Antes surgem da dor, do trabalho
escravo,
Feridas nas costas nos homens e seus
pecados.
E as águas vermelhas tomam, de assalto,
a cidade,
Correm no leito das valas e dos
córregos,
Afogando tudo em ondas gigantes.
Rubra é a enchente, escarlate é o
pesadelo,
Vindo da dor alheia e do pecado,
Vindo do que quisemos tanto ocultar...
Segurai-vos! Abancai-vos! A terra está
sumindo,
Enquanto os pobres e fracos se vingam,
Enquanto a natureza ri e se vinga com
nosso fim.