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sábado, 12 de julho de 2014

Águas Vermelhas

Águas vermelhas correm. Pelo chão. Pelas pedras.
Fluem devagar pelas valas de todas as calçadas.
Passam então pelo centro, passam pelos prédios,
Esgueiram-se pelos nossos carros, ônibus e túneis.
Rios rubros correm pela cidade na noite,
Em meio a este ar tão frio da madrugada.
Brilham e refulgem sob as luzes do centro,
Sobre os comércios e as pontes.
Lá estão, entrando pelas portas fechadas,
Subindo os elevadores até as coberturas, sacadas.
Lá estão eles, lavam todos os nossos passos,
Matam a sede e a fome dos empresários,
Dos ricos, dos estudados e dos milionários.
Descem de onde? De que lugar?
Dos sonhos? Do amor? Do medo? Da morte?
Cada vez mais vinho, cada vez mais escarlate,
Há lagos que se formam das ruas e marquises.
Cada vez mais sangue, mais tingidos,
Vão saindo do fundo do chão, da terra e do mar.
De onde vêm? De onde saem?
Das grutas que já nos esquecemos no solo?
Não; antes se formam sobre as casas,
Sob os bairros e sob as vidas de fachada.
Antes se formam da fome, da miséria,
Antes surgem da dor, do trabalho escravo,
Feridas nas costas nos homens e seus pecados.
E as águas vermelhas tomam, de assalto, a cidade,
Correm no leito das valas e dos córregos,
Afogando tudo em ondas gigantes.
Rubra é a enchente, escarlate é o pesadelo,
Vindo da dor alheia e do pecado,
Vindo do que quisemos tanto ocultar...
Segurai-vos! Abancai-vos! A terra está sumindo,
Enquanto os pobres e fracos se vingam,
Enquanto a natureza ri e se vinga com nosso fim.

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